Durante a reunião realizada em 1º de outubro, no gabinete do vereador Dinho, uma questão ganhou espaço na discussão e merece ser examinada com maior profundidade. Estamos diante de uma redução efetiva da procura por Florianópolis ou o consumidor está modificando seu comportamento, deixando para decidir e reservar suas viagens cada vez mais perto da data do embarque? A informação compartilhada sobre o mercado argentino, durante a FIT de Buenos Aires, de que parte das decisões de viagem estaria acontecendo numa janela de aproximadamente 25 a 30 dias, reforçou essa preocupação. Se esse comportamento estiver se consolidando, parte das projeções construídas a partir de padrões anteriores pode estar perdendo sua capacidade de representar o que efetivamente acontecerá na temporada.

Naturalmente, uma hipótese não elimina a outra. Podemos estar diante de uma combinação de fatores, com mercados apresentando comportamentos diferentes, alterações na conectividade aérea, mudanças no poder de compra e até resistência aos preços praticados. O problema começa quando tentamos interpretar esse conjunto de variáveis observando apenas um indicador, geralmente o volume de reservas futuras, sem conseguir identificar o que está acontecendo por trás dele.

Florianópolis produz diariamente uma quantidade considerável de informações relacionadas ao turismo, nos hotéis, no aeroporto, nas plataformas digitais, entre operadores turísticos e organizadores de eventos. Cada uma dessas fontes permite enxergar uma parte do mercado, mas não são as únicas. E mesmo que fossem, ainda temos dificuldade para reunir essas informações e construir uma leitura mais abrangente do destino.

Os dados do turismo de Florianópolis existem, mas a leitura ainda é fragmentada

Um aumento no número de passageiros desembarcando no aeroporto, por exemplo, não representa necessariamente crescimento proporcional da ocupação hoteleira de Florianópolis, considerando que parte desse fluxo segue para outros municípios da região. Da mesma forma, uma ocupação futura abaixo das expectativas pode indicar retração da procura, uma janela de reservas mais curta ou resistência do consumidor às tarifas disponíveis. São situações que podem produzir resultados semelhantes nos relatórios comerciais, embora tenham origens e consequências diferentes.

Nesse contexto, considero importante observar também a estratégia tarifária da própria hotelaria. Nos últimos anos, expectativas elevadas de demanda contribuíram para sustentar tarifas mais altas em determinados períodos. Quando essas projeções não se confirmam, precisamos investigar quanto da desaceleração está relacionado à procura e quanto pode estar associado ao preço. A evolução das reservas, o comportamento dos mercados emissores, a antecedência de compra e as tarifas praticadas precisam ser analisados conjuntamente. Sem essa leitura, corremos o risco de atribuir ao mercado uma retração que pode ter outras explicações, ou de interpretar como simples postergação de reservas uma redução efetiva da demanda.

Quem me acompanha e tem lido minhas análises sabe que tenho insistido na necessidade de ferramentas preditivas para construirmos uma visão de mercado que permita compreender os movimentos da demanda enquanto ainda existe tempo para ajustar estratégias. Mas eu não sou o único.

Na mesma semana em que escrevo este artigo, fui procurado pelo professor Dr. Amarildo Felipe Kanitz, da UNIVALI, que desenvolve, com financiamento da FAPESC, uma pesquisa sobre inovação e Destinos Turísticos Inteligentes (DTI) em Santa Catarina. Ele entrou em contato para compartilhar o trabalho e solicitar minha contribuição como profissional do setor turístico, por meio de um questionário que investiga o estágio de desenvolvimento de Florianópolis, Joinville e Bombinhas.

A pesquisa que desenvolve há aproximadamente dois anos procura compreender como os destinos estão avançando em aspectos relacionados à governança, inovação, infraestrutura tecnológica e utilização de informações. Entre os questionamentos apresentados, encontrei temas bastante próximos daqueles que venho abordando, como o compartilhamento de dados entre organizações, a integração de sistemas, a participação da iniciativa privada na construção de soluções e a aplicação de inteligência artificial e análise preditiva ao turismo. O estudo também contempla dimensões mais amplas, relacionadas à experiência do visitante, à mobilidade e à sustentabilidade, que merecem uma discussão própria.

A própria administração municipal demonstra estar atenta a essa necessidade. Durante a reunião, a Secretaria Municipal de Turismo informou que está avançando nas tratativas para contratar o IFSC para estruturar uma Central de Inteligência Turística. Ainda precisamos conhecer o escopo dessa iniciativa, as fontes de informação que serão contempladas e a forma como o setor privado poderá participar, mas existe aí uma possibilidade concreta de desenvolver uma estrutura capaz de melhorar a leitura do mercado turístico de Florianópolis.

Uma das alternativas que apresentei durante a reunião envolve justamente a utilização de informações que já estão disponíveis nos sistemas de gestão dos hotéis, conhecidos como PMS. Esses sistemas registram diariamente reservas futuras, cancelamentos, ocupação, diária média e ritmo de vendas. Por meio de conexões por API, seria possível compartilhar indicadores agregados, com critérios de segurança e confidencialidade, preservando as informações comerciais individuais de cada empreendimento e permitindo acompanhar o comportamento das reservas em uma amostra representativa da hotelaria.

Quando associamos esses indicadores à conectividade aérea, aos mercados emissores, às buscas por hospedagem e ao calendário de eventos, começamos a construir uma base com maior capacidade de explicar o comportamento da demanda. Com informações históricas consistentes e atualizações frequentes, modelos estatísticos e ferramentas de inteligência artificial poderiam ajudar a identificar alterações de tendência, reconhecer padrões de compra e produzir projeções para diferentes períodos.

Integrar informações para antecipar a demanda turística de Florianópolis

É nesse conjunto de possibilidades que vejo a importância de uma Central de Inteligência Turística. Florianópolis já possui diferentes fontes de informação e instituições com capacidade técnica para contribuir com o desenvolvimento dessa estrutura. A integração dependerá de critérios claros de compartilhamento, participação dos agentes envolvidos e continuidade na produção das análises. Também será necessário definir quais indicadores realmente ajudam a compreender o mercado, evitando acumular informações que pouco acrescentem às decisões.

A experiência relatada pelo professor Amarildo reforça uma preocupação que considero relevante nesse processo: a necessidade de equipes tecnicamente preparadas e de uma estrutura de governança capaz de sustentar o trabalho ao longo do tempo. Uma ferramenta preditiva exige atualização permanente, acompanhamento dos resultados e capacidade de revisar seus modelos conforme o comportamento do mercado se modifica. Sua utilidade dependerá da qualidade das informações e da competência de quem as interpreta.

Os R$ 450 mil anunciados para a promoção emergencial representam uma resposta à preocupação imediata com a temporada. A campanha poderá contribuir para estimular a procura, mas seus resultados também precisarão ser acompanhados para que possamos compreender o comportamento dos mercados alcançados e avaliar os efeitos das ações realizadas. Além, é claro, de uma prestação de contas detalhada e com os insumos e benefícios gerados acessíveis a todos. Afinal, são ações realizadas com dinheiro público.

A discussão sobre previsibilidade continuará existindo depois dessa temporada. Se parte dos nossos visitantes está tomando a decisão de viajar com apenas 25 ou 30 dias de antecedência, precisamos compreender como esse comportamento afeta nossas projeções e quais indicadores podem nos ajudar a identificá-lo mais cedo. Se a demanda estiver efetivamente diminuindo, também precisamos reconhecer esse movimento e investigar suas causas antes que seus efeitos apareçam nos resultados consolidados.

A informação precisa chegar a tempo da decisão para orientar o turismo de Florianópolis

Florianópolis já reúne informações, conhecimento técnico e iniciativas que podem contribuir para essa construção. A possibilidade de integrá-los abre espaço para uma gestão turística mais preparada para interpretar as mudanças do mercado e orientar decisões com antecedência. É um trabalho que venho defendendo há bastante tempo e que, como mostram as iniciativas em andamento e a trajetória de outros profissionais dedicados ao tema, encontra preocupações semelhantes em diferentes áreas do turismo catarinense.