Participei, durante a Encatho, no dia 12 de agosto, do Fórum do Núcleo de Turismo Estadual da FACISC, em que três municípios apresentaram experiências diferentes. Canguçu falou sobre a continuidade de uma governança desenvolvida ao longo de anos a partir de uma metodologia estruturada. Arroio Trinta contou como o primeiro grupo de visitantes mudou a percepção dos produtores. Grão-Pará mostrou como está se preparando para uma nova dinâmica de circulação com a ligação pela Serra do Corvo Branco.
Os três relatos formaram uma mesma pergunta: em que momento o potencial turístico se transforma em resultado para o território?
Em Canguçu, propriedades rurais, hospedagem, gastronomia, produção de azeite e outras experiências foram reunidas em um roteiro. O processo foi desenvolvido no âmbito do Programa de Desenvolvimento Econômico Local (DEL), conduzido pelo Instituto DEL. A metodologia articula poder público, iniciativa privada e sociedade civil em uma estrutura tripartite, com conselho de desenvolvimento e câmaras técnicas. Aline Nandi, responsável pela implantação do projeto em Canguçu e também em Arroio Trinta, acompanhou a aplicação do modelo nos dois municípios.
As empreendedoras não esconderam a parte difícil. Falaram do trabalho voluntário, do cansaço, dos conflitos e da dependência de poucas pessoas para manter a agenda coletiva. Uma delas lembrou das vacas e das ovelhas que deixava na propriedade enquanto viajava para cuidar do turismo.
Foi nesse ponto que perguntei como a estrutura continuaria quando as lideranças atuais já não pudessem dedicar a mesma energia. A resposta mostrou que a sucessão ainda é um desafio. A governança está definida, com associação, núcleo, cargos e participação empresarial, mas parte importante da mobilização permanece concentrada em quem assumiu a frente.
Esse risco não é exclusivo de Canguçu. Uma metodologia pode estabelecer a governança e distribuir responsabilidades, mas sua operação cotidiana ainda depende de pessoas capazes de mobilizar o território. A maturidade aparece quando o trabalho atravessa mudanças de gestão e de lideranças sem voltar ao início.

As palestrantes apresentaram Arroio Trinta, município de 3.556 habitantes, com forte presença da cultura italiana e economia ligada à agricultura. O município também aplicou o Programa DEL e estruturou experiências relacionadas à colheita e pisa da uva, caqui, pêssego, gastronomia, vinícolas e propriedades rurais.
O relato mais esclarecedor foi o do primeiro ônibus. Uma agência procurava uma propriedade onde os visitantes pudessem colher uvas. O pedido chegou em cima da hora. O produtor não tinha sacolas, caixa ou atendimento preparado. As responsáveis pela agência receptiva improvisaram a operação e fizeram o grupo chegar.

Ao final, o produtor havia vendido para pessoas de fora aquilo que estava acostumado a enxergar apenas como parte da rotina agrícola. Também recebeu o reconhecimento de visitantes que viam valor na experiência. A partir daquela venda, a conversa sobre turismo deixou de ser apenas promessa.
Foi ali que o planejamento encontrou seu primeiro teste real. A operação expôs custos esquecidos, problemas de precificação, a necessidade de orientar o parceiro e detalhes que as reuniões ainda não haviam mostrado. O grupo voltou para casa com uma experiência concreta para corrigir e vender novamente.
Grão-Pará está diante de outro desafio. A ligação pela Serra do Corvo Branco pode aumentar a circulação e aproximar o município de um destino consolidado como Urubici.
Perguntei ao prefeito como o município pretende medir esse movimento e identificar a receita gerada pelos visitantes. Ele afirmou que Grão-Pará utiliza monitoramento nos acessos e desenvolve uma plataforma que reunirá empreendimentos, atrativos, eventos, passaporte e registros de visitação.
O alcance de cada instrumento precisa estar claro. A câmera conta veículos, mas não informa permanência. O check-in registra adesões, mas não representa todos os visitantes. O hotel conhece hospedagem e diária; o restaurante conhece consumo; o atrativo conhece visitação; a prefeitura acompanha arrecadação e infraestrutura. A leitura econômica depende de combinar essas partes.

Na hotelaria, essa diferença é familiar. Ocupação mostra volume, mas não revela sozinha a qualidade da receita, o custo de aquisição, a permanência ou quanto a venda deixou no negócio. Com os destinos acontece algo parecido. Contar pessoas ou veículos é necessário, mas o fluxo não explica quanto valor permaneceu no território nem como ele se distribuiu.
Municípios pequenos podem começar com boas perguntas e uma rotina de dados que sobreviva à mudança de governo. Origem, permanência, gasto e circulação do consumo podem ser acompanhados com instrumentos proporcionais, pesquisas comparáveis e informações agregadas dos empreendimentos.
Isso exige participação privada. O poder público enxerga acessos, investimentos e arrecadação. Quem recebe o visitante percebe comportamentos que não aparecem nesses registros. Uma governança capaz de reunir os dois lados produz uma leitura mais próxima do que realmente aconteceu.

Em Arroio Trinta, a percepção mudou quando o produtor recebeu o primeiro grupo, vendeu sua uva e viu pessoas de fora atribuírem valor à experiência. Em Grão-Pará, o monitoramento dos acessos pode indicar quantos veículos passaram. Para compreender o resultado econômico do turismo, será preciso acompanhar também onde o visitante parou, quanto tempo permaneceu e como seu consumo alcançou os negócios do município.
É essa ligação entre movimento e receita que permite ao destino avaliar seus resultados e identificar onde há espaço para ampliar a geração de valor.
Referências
COMITÊ ESTADUAL DE TURISMO DA FACISC. Transcrição automática integral da reunião, com participação de Luciano Vieira. Material de origem de LVA-000002, 2026.
FACISC. Instituto de Desenvolvimento Econômico Local — IDEL. Disponível em: facisc.org.br/solucao/instituto-de-desenvolvimento-economico-local-idel.
FACISC. Nossos líderes: entrevista com Ildefonso Cividini. Informações sobre a implantação do Programa DEL em Arroio Trinta. Disponível em: facisc.org.br/noticias/nossos-lideres-entrevista-com-ildefonso-cividini.
INSTITUTO DEL. Grão-Pará celebra avanços do Programa DEL em seu primeiro fórum. Informações sobre a metodologia tripartite e a atuação de Aline Nandi. Disponível em: institutodel.org.br/grao-para-celebra-avancos-do-programa-del-em-seu-primeiro-forum.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Arroio Trinta: Cidades e Estados. Censo 2022. Disponível em: ibge.gov.br/cidades-e-estados/sc/arroio-trinta.html.
PREFEITURA MUNICIPAL DE CANGUÇU. Conheça os atrativos do Roteiro Olivais da Serra dos Tapes. 4 mar. 2022. Disponível em: cangucu.rs.gov.br/portal/noticias.
SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA DE SANTA CATARINA. Orleans e Grão Pará são contemplados com Centrais de Videomonitoramento. 18 maio 2016. Disponível em: ssp-sc.blogspot.com/2016/05.
PREFEITURA MUNICIPAL DE GRÃO-PARÁ. Portal Municipal de Turismo de Grão-Pará. Disponível em: turismo.graopara.sc.gov.br.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Secretário de Infraestrutura detalha obras da Serra do Corvo Branco na Comissão de Transportes. 7 abr. 2026. Disponível em: alesc.sc.gov.br/agencia/noticia.
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