Participei do Fórum do Núcleo de Turismo Estadual da FACISC, realizado durante a Encatho no dia 12 de agosto, esperando ouvir experiências de governança, cooperação e desenvolvimento de destinos. Foi exatamente o que estava na programação. Ainda assim, o que permaneceu comigo ao final da tarde foram duas perguntas menos confortáveis: quem continua o trabalho quando as pessoas que hoje o conduzem saem de cena? E como um município demonstra que o turismo gerou resultado, além de movimento?
As perguntas apareceram em momentos diferentes. A primeira, durante a apresentação de Canguçu, no sul do Rio Grande do Sul. A segunda, na conversa com o prefeito de Grão-Pará, em Santa Catarina. Entre uma e outra, a experiência de Arroio Trinta mostrou o instante em que anos de organização encontram um cliente disposto a comprar.
A reunião não tratava apenas de municípios com potencial turístico. Potencial todos eles já tinham. O que estava em discussão era o trabalho necessário para transformar aquilo que existe no território em atividade econômica, manter essa construção viva e saber o que ela produziu.
Quando as pessoas que puxam o processo não estiverem mais ali
Canguçu apresentou um roteiro formado por propriedades rurais, hospedagem, gastronomia, azeites, bebidas e experiências ligadas ao cotidiano das famílias. A autenticidade que hoje aparece como produto turístico já estava nas propriedades. O caminho para reconhecê-la e organizá-la começou anos antes, com o Programa de Desenvolvimento Econômico Local (DEL), conduzido pelo Instituto DEL, a associação empresarial, a formação do núcleo de turismo e muitas reuniões. A metodologia já oferecia uma arquitetura de governança: poder público, iniciativa privada e sociedade civil articulados em uma estrutura tripartite, com conselho de desenvolvimento e câmaras técnicas. Aline Nandi, responsável pela implantação do projeto em Canguçu e também em Arroio Trinta, acompanhou a aplicação desse modelo nos dois municípios.
O relato das empreendedoras teve uma franqueza que raramente cabe nas apresentações prontas sobre destinos. Elas falaram da vontade de ver os empreendimentos cheios assim que o roteiro foi lançado. Brincaram que esperavam quase um avião descendo na cidade. Falaram também dos egos, do cansaço, do trabalho voluntário e das horas retiradas dos próprios negócios. Uma delas lembrou das vacas e das ovelhas que continuavam esperando enquanto ela viajava para cuidar de uma agenda coletiva.
O resultado veio na forma de um grupo que aprendeu a operar essa estrutura, atravessou mudanças no poder público, criou uma associação própria e passou a ser procurado por novos empreendedores. A governança não nasceu do improviso: partiu do modelo estabelecido pelo DEL. O que se construiu durante o trabalho foi a capacidade local de dar vida a esse desenho, distribuir responsabilidades e sustentar a cooperação no cotidiano.
Foi ali que fiz minha primeira pergunta. As duas empreendedoras eram claramente decisivas para o funcionamento daquela estrutura. Quis saber como ela continuaria se, amanhã, já não pudessem dedicar ao coletivo a mesma energia de hoje. A questão não diminuía o que haviam construído. Só se pergunta sobre sucessão quando existe algo importante a preservar.
A resposta foi honesta. Preparar outras pessoas ainda é um desafio. Há uma governança definida, com cargos, associação, núcleo, participação de empreendedores e relação com o poder público, mas boa parte da mobilização continua concentrada em quem assumiu a frente. O modelo está estabelecido; a renovação das lideranças precisa amadurecer também.

Essa é uma fragilidade comum em projetos territoriais. O município recebe uma metodologia, institui uma governança, reúne pessoas, cria câmaras técnicas, forma um núcleo e passa a contar com algumas lideranças muito disponíveis. Quando o acompanhamento técnico diminui, muda a gestão municipal ou a vida cobra atenção de quem trabalhava voluntariamente, descobre-se se a estrutura foi incorporada pelo território ou se sua operação ainda depende excessivamente do esforço de poucas pessoas.
O primeiro ônibus
As palestrantes apresentaram Arroio Trinta, município de 3.556 habitantes, com forte presença da cultura italiana e economia ligada à agricultura. A organização do turismo resultou em câmaras técnicas, roteiro, núcleo e uma agência receptiva criada por duas irmãs que já acompanhavam o movimento a partir da associação empresarial.
Elas apresentaram experiências que hoje conseguem comercializar: colheita e pisa da uva, produção de geleia, colheita de caqui e pêssego, gastronomia italiana, vinícolas, cervejaria e propriedades rurais que transformaram práticas familiares em vivências para visitantes. Nada disso parece extraordinário para quem cresceu vendo a uva, o pão, a polenta ou a fruta no pé. Para quem chega de fora, pode ser justamente a razão da viagem.
A parte mais reveladora veio quando contaram sobre o primeiro grupo. Uma agência procurava onde levar visitantes para colher uvas. O contato chegou praticamente em cima da hora. O produtor não tinha preparado sacolas, caixa ou uma operação de atendimento. Elas improvisaram o que faltava, conduziram o ônibus e fizeram a experiência acontecer.

Ao final, aquele produtor havia vendido sua uva para pessoas de fora e recebido algo que também tinha valor: o reconhecimento de quem olhava para um cacho comum na propriedade como parte especial do passeio. Segundo o relato, boa parte da resistência perdeu força a partir dali.
Durante muito tempo, o turismo é uma conversa sobre potencial. O produtor ouve que sua propriedade pode receber pessoas, que a cultura local tem valor, que a gastronomia pode compor um roteiro. Tudo isso ainda é abstrato. O primeiro ônibus muda a conversa porque põe alguém diante do produto e produz uma transação. O visitante chega, participa, paga, leva a fruta e conta a experiência.
Foi também nesse momento que a agência começou a aprender o próprio negócio. A precificação não veio pronta. A operação revelou custos, falhas e necessidades que o planejamento ainda não havia mostrado. O mercado apareceu como professor, às vezes de maneira incômoda.
Reuniões, planejamento e articulação foram indispensáveis. O processo ganhou outra densidade quando alguém vendeu. A partir dali, o coletivo já não defendia apenas uma ideia de futuro. Tinha uma experiência real para melhorar.
Depois da estrada
Em Grão-Pará, a expectativa está ligada a uma mudança de escala. O município se prepara para a conclusão da ligação pela Serra do Corvo Branco e para uma proximidade maior com um destino consolidado como Urubici. Tem paisagem, parques, uma festa que mobiliza a cidade, produção local e uma gestão pública empenhada em fortalecer o pertencimento da população. Também vem organizando planejamento, inventário e instrumentos para a atividade turística.
O prefeito deixou claro que Grão-Pará quer aproveitar a circulação regional e fazer com que o visitante reconheça razões para passar pelo município, parar e permanecer. Essa postura me parece correta. O turista não respeita as divisões administrativas com as quais organizamos políticas públicas. Ele combina caminhos, experiências e cidades de acordo com a viagem que deseja fazer.
A estrada, porém, traz uma armadilha. O aumento de veículos é visível e fácil de comunicar. Se a contagem crescer, a tentação será atribuir o movimento ao turismo e tratá-lo como resultado. Foi por isso que fiz a segunda pergunta da tarde.
Quis saber como o município pretendia medir esse fluxo e, principalmente, como conseguiria identificar a receita gerada pelas pessoas que passassem a circular por ali. Já havia discutido em Florianópolis a possibilidade de usar informações fiscais para compreender melhor a origem do consumo turístico. Levei a ideia como provocação. Qualquer instrumento desse tipo exigiria cuidado jurídico, proteção de dados e uma finalidade pública bem definida. O ponto era sair da contagem de passagem e chegar à atividade econômica.

Na reunião, o prefeito afirmou que o município utiliza monitoramento nos acessos e desenvolve uma plataforma com empreendimentos, atrativos, eventos, passaporte e registros de visitação.
Cada instrumento enxerga uma coisa. A câmera identifica o veículo, o check-in revela a visita registrada, o comércio conhece a venda e a prefeitura acompanha a arrecadação e a infraestrutura. Mas a câmera não consegue precisar se o carro só passou ou permaneceu, o sistema de check-in depende de um atrativo forte para gerar adesão, o comércio vê apenas o consumo feito em seu estabelecimento e a prefeitura nem sempre consegue separar da arrecadação o que veio do visitante.
A boa medição provavelmente nascerá da combinação dessas leituras. Fluxo, origem, permanência, gasto e distribuição do consumo respondem a perguntas diferentes. Um destino pode receber mais carros e reter pouco valor. Pode ter menos visitantes, mas experiências mais bem vendidas e maior permanência. Pode movimentar um atrativo sem alcançar o comércio ao redor.
Municípios pequenos podem começar com perguntas precisas e uma rotina que sobreviva à próxima gestão. Uma pesquisa simples, repetida nos mesmos períodos, pode ser mais útil do que uma plataforma sem alimentação regular. A governança importa aqui novamente: alguém precisa reunir informações que estão espalhadas e criar confiança para que sejam compartilhadas.

Ao final da reunião, os três casos já não pareciam histórias separadas. Canguçu mostrou quanto trabalho existe para fazer uma governança formal continuar funcionando para além das lideranças que hoje mais a mobilizam. Arroio Trinta mostrou a passagem do potencial para a primeira venda. Grão-Pará colocou diante de todos a necessidade de acompanhar o que acontece quando uma nova infraestrutura altera o fluxo.
O primeiro ônibus de Arroio Trinta não provou que todo o trabalho estava concluído. Provou que havia algo que alguém queria comprar. A estrada de Grão-Pará também não provará, por si, que o turismo transformou a economia local. A ligação pode ampliar a circulação regional. Entre uma coisa e outra, há propriedades para preparar, produtos para vender, relações para sustentar e resultados para acompanhar.
Talvez a medida mais honesta do avanço de um destino esteja justamente nesse intervalo: quando o visitante deixa de ser uma promessa, encontra o que comprar e permite que o território descubra quanto daquela viagem realmente ficou ali.
Referências do artigo
COMITÊ ESTADUAL DE TURISMO DA FACISC. Transcrição automática integral da reunião, com participação de Luciano Vieira. Material de origem de LVA-000002, 2026.
FACISC. Instituto de Desenvolvimento Econômico Local — IDEL. Disponível em: facisc.org.br.
FACISC. Nossos líderes: entrevista com Ildefonso Cividini. Informações sobre a implantação do Programa DEL em Arroio Trinta. Disponível em: facisc.org.br.
INSTITUTO DEL. Grão-Pará celebra avanços do Programa DEL em seu primeiro fórum. Disponível em: institutodel.org.br.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Arroio Trinta: Cidades e Estados. Censo 2022. Disponível em: ibge.gov.br.
PREFEITURA MUNICIPAL DE CANGUÇU. Conheça os atrativos do Roteiro Olivais da Serra dos Tapes. 4 mar. 2022. Disponível em: cangucu.rs.gov.br.
SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÚBLICA DE SANTA CATARINA. Orleans e Grão Pará são contemplados com Centrais de Videomonitoramento. 18 maio 2016. Disponível em: ssp-sc.blogspot.com.
PREFEITURA MUNICIPAL DE GRÃO-PARÁ. Portal Municipal de Turismo de Grão-Pará. Disponível em: turismo.graopara.sc.gov.br.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. Secretário de Infraestrutura detalha obras da Serra do Corvo Branco na Comissão de Transportes. 7 abr. 2026. Disponível em: alesc.sc.gov.br.
