CentroSul: o custo de uma transição sem previsibilidade

Florianópolis construiu parte relevante do seu turismo de negócios em torno de um único equipamento.

Quando o CentroSul opera em plena capacidade, a cadeia se move: hotéis, fornecedores, restaurantes, transporte, comércio, serviços. Quando entra em incerteza, o efeito se espalha por toda essa cadeia.

É por isso que a discussão sobre a transição da concessão do principal centro de convenções da cidade não pode ser lida apenas como uma questão jurídica ou administrativa. O que está em jogo é a capacidade de Florianópolis manter sua agenda de turismo de negócios funcionando durante uma troca de ciclo.

E esse é o risco que ainda não está suficientemente dimensionado.

Como a transição chegou a este ponto

A origem do impasse passa pela pandemia.

Naquele período, a prorrogação da concessão fazia sentido. O setor de eventos foi um dos mais afetados pelas restrições sanitárias. O espaço ficou sem operar plenamente, o mercado estava fragilizado e uma extensão do prazo aparecia como solução razoável diante de um cenário excepcional.

O problema não foi a prorrogação da pandemia.

O problema veio depois. A solução transitória se alongou. A nova licitação não avançou no ritmo necessário. A concessão foi novamente estendida. E a gestão atual herdou ao mesmo tempo o edital por fazer, a modelagem econômica por concluir, a transição operacional por garantir e a agenda comercial por proteger.

Cada uma dessas camadas exige cuidado técnico. Juntas, criaram uma corrida contra o tempo.

A modelagem contempla uma área significativa, com estudo de viabilidade técnica e econômica em curso, consultas a operadores e ajustes de escopo entre o que a cidade quer e o que o mercado consegue viabilizar. A preocupação com o entorno, o acesso e a integração entre os espaços é legítima. Mas quanto mais amplo o escopo, maior o CAPEX exigido. E quanto maior o CAPEX, mais difícil fechar a equação de retorno para quem vai investir.

É um processo legítimo e necessário.

CentroSul: linha do tempo da concessão

Mas existe uma diferença entre estruturar o futuro e proteger o presente comercial.

É nessa diferença que a cidade corre risco.

A agenda não espera o edital

No turismo de eventos, o calendário anda muito antes da operação.

Um congresso, uma feira ou uma convenção de grande porte pode começar a ser prospectado e negociado até quatro anos antes da data de realização. Quando essa engrenagem perde previsibilidade, o impacto não aparece imediatamente. Ele surge depois. E ele se espalha por toda a cadeia econômica da cidade.

O organizador de evento não espera indefinidamente. Se o destino não consegue garantir data, operação e segurança contratual, ele procura outra cidade. O prejuízo não fica no centro de convenções. Ele se espalha.

Quando o evento não vem, quem perde?

Essa cadeia tem uma característica que raramente aparece nos diagnósticos sobre turismo de eventos: ela não fica concentrada no entorno imediato do equipamento.

Um evento com público acima de três mil pessoas já é suficiente para lotar o centro de Florianópolis. E quando o centro lota, a demanda se distribui organicamente. Hotéis dos bairros vizinhos passam a ser acionados. Restaurantes fora do eixo central recebem fluxo. Prestadores de serviço de regiões periféricas são contratados. A arrecadação de impostos cresce além do que o setor turístico consegue medir diretamente.

O impacto colateral de um evento não aparece no relatório do CentroSul. Mas aparece na cidade.

O risco não é de Florianópolis ficar sem nenhum evento. O risco é atravessar uma janela de um ou dois anos com perda relevante de captação, redução de fluxo qualificado e desorganização da agenda no principal equipamento da cidade.

Seria um apagão comercial. Não causado por falta de demanda. Por falta de segurança na transição.

O sinal do impasse

Durante reunião ampliada realizada na Câmara de Vereadores, o poder público informou que houve tentativa de composição para permitir a comercialização de eventos futuros com uma taxa de captação de 20%. Percentual baseado em estudo de mercado que identificou variação entre 10% e 20% nas práticas nacionais.

A resposta foi uma contraproposta de 45%.

Esse número não é apenas uma divergência de percentual. É um sinal.

Esse mecanismo deveria ter sido resolvido antes.

A negociação que revelou o impasse

O que a B3 muda. E o que não muda.

A Prefeitura anulou os aditivos contratuais da concessão atual e levou o processo à B3. A decisão reestabelece o prazo de encerramento da concessão para 31 de dezembro de 2026 e abre a licitação em uma plataforma com credibilidade nacional.

É um avanço.

A B3 amplia a vitrine para operadores de maior porte. Dá robustez ao rito. Reduz o risco de questionamento local.

Mas não resolve tudo.

A B3 organiza a disputa. Não recompõe eventos já perdidos.

Dá credibilidade ao leilão. Não elimina o risco de judicialização.

Ajuda a atrair interessados. Não substitui a necessidade de uma transição comercial segura.

O cronômetro que foi ligado é real. E ele não para enquanto a agenda comercial segue sem uma resposta clara.

O plano B não é acessório

A Prefeitura sinalizou a possibilidade de contratação emergencial ou pregão para comercialização e eventual operação temporária, caso a nova concessão não esteja apta a iniciar no prazo previsto.

Esse ponto merece ser formalizado com clareza. Antes de ser necessário.

A transição do CentroSul não pode ser lida apenas pelo melhor cenário. O cenário possível também precisa de resposta: atraso, recurso, judicialização ou dificuldade de homologação.

Algumas perguntas pedem resposta objetiva antes que o problema aconteça.

Quem vende eventos futuros durante a transição?

Quem opera os eventos já vendidos se a nova concessão atrasar?

Como os contratos são transferidos ao novo operador?

Quem responde pela entrega ao organizador?

Sem essas respostas, a insegurança continua. E insegurança, nesse setor, tem custo comercial mensurável.

O que a análise permite propor

Algumas proposições emergem desse quadro.

A primeira é separar o tempo da concessão definitiva do tempo da comercialização futura. O edital estruturado para o longo prazo pode e deve seguir seu rito. A agenda de 2027 em diante merece solução imediata e independente desse processo.

A segunda é criar um instrumento transitório com prazo definido, remuneração clara, obrigação de repasse de dados e regras de transferência para a futura concessionária. Não como alternativa à nova concessão. Como proteção da agenda durante a troca de ciclo.

A terceira é calibrar o investimento exigido por fases. A modernização do espaço e do entorno é necessária. Mas o equilíbrio entre CAPEX e taxa de retorno viável define se o leilão terá competição real ou se chegará vazio ao prazo.

A quarta é dar publicidade aos marcos da transição. O trade não precisa dos detalhes jurídicos do processo. Precisaria saber quais são os pontos de decisão, os prazos e as alternativas em caso de atraso.

Os três tempos

O CentroSul não é apenas um equipamento físico. É uma infraestrutura de previsibilidade para Florianópolis.

Quando funciona bem, distribui demanda, sustenta a cadeia de serviços e reduz a dependência da cidade em relação ao turismo puramente sazonal.

Quando entra em incerteza, o efeito se espalha.

O desafio agora é alinhar três tempos que estão correndo em velocidades diferentes.

Os três tempos que precisam ser coordenados

Se esses três tempos não forem coordenados, o CentroSul pode chegar a uma nova gestão em 2027. Mas a cidade chegará com parte da agenda já perdida.

Florianópolis sabe quantos eventos tem?

Esse risco específico avançou para uma solução. Em 25 de junho, a Prefeitura assinou um contrato emergencial que garante ao consórcio atual a prerrogativa de comercializar eventos de 2027 durante a transição. Isso é uma boa notícia direta para hotéis, fornecedores e prestadores de serviço que dependem da agenda do CentroSul para projetar demanda. A cidade não deve enfrentar um vazio de grandes eventos por conta da troca de concessão.

A reportagem que trouxe essa informação deixa algumas perguntas em aberto. Qual foi o modelo de negociação definido. Como os contratos serão formalmente transferidos ao novo operador quando ele assumir.

E essa lacuna leva a uma pergunta maior, que já estava no centro deste artigo antes mesmo desse desdobramento.

O que o mercado perdeu. E o que nunca teve.

Até 2017, parte do trade turístico de Florianópolis tinha acesso a um serviço de assinatura com informações estruturadas sobre a agenda futura do CentroSul: datas, perfil de público, organizadores, expectativa de participantes. O serviço era pago. Quem assinava recebia a agenda periodicamente.

Para hotéis, fornecedores e prestadores de serviço, esse tipo de dado não é detalhe operacional. É insumo de planejamento. Com ele, um hotel consegue projetar demanda com antecedência, ajustar precificação, dimensionar equipe e criar estratégia de captação direta junto aos organizadores. Um fornecedor de audiovisual sabe quando vai precisar de mais capacidade. Um restaurante sabe quando preparar estoque e reforçar mão de obra.

Em 2017, o serviço foi descontinuado. O mercado seguiu operando. Mas com menor previsibilidade.

O organizador de eventos, por sua vez, nunca teve acesso a essa base de forma estruturada. Não é algo que perdeu. É algo que nunca existiu para ele.

E é exatamente aí que o problema se aprofunda.

Sem uma visão integrada da agenda da cidade, o organizador fecha data sem saber o que mais está acontecendo no mesmo período. O conflito de datas em Florianópolis não é um fenômeno recente. É uma dor recorrente do mercado, anterior ao fim do serviço de assinatura e independente dele. Dois eventos de grande porte na mesma janela encarecem hospedagem, transporte e mão de obra especializada. A experiência do participante piora. No ciclo seguinte, o organizador considera outros destinos.

Esse mecanismo raramente é medido porque o dano não aparece no evento em que acontece. Ele aparece na edição seguinte, quando o evento não volta.

Dois problemas diferentes. Uma mesma fragilidade.

O gargalo está antes da agenda

Na reunião ampliada realizada na Câmara de Vereadores, foi resgatada a proposta de utilizar os processos de autorização e alvarás municipais como fonte de dados para uma agenda integrada de eventos.

A resposta do poder público foi honesta: esses registros chegam tarde. Muitas vezes o alvará é emitido dois ou três dias antes do evento. Isso inviabiliza o uso dessa informação para planejamento.

Mas essa resposta, embora precisa, levanta uma pergunta diferente.

Se o processo administrativo não produz informação útil para planejamento, talvez o problema não seja o uso dos dados. Talvez seja o processo que os gera.

Um alvará emitido dois dias antes do evento não serve para inteligência de mercado. Mas um sistema que registra a intenção de realização do evento com antecedência razoável, ainda que sujeito a ajustes, já permitiria uma leitura muito mais útil da agenda futura da cidade.

A questão não é abandonar os dados porque chegam tarde. É perguntar por que chegam tarde. E se é possível mudar isso.

O que uma agenda municipal tornaria possível

Florianópolis poderia estruturar uma base de informações sobre eventos a partir dos próprios processos de autorização. Não apenas os eventos do CentroSul. Eventos esportivos, shows, congressos, feiras, ativações e demais atividades que dependam de algum tipo de licença municipal.

A cidade já deu um passo nessa direção com o portal floripa.com. Mas o sistema ainda depende da iniciativa dos organizadores em registrar e do poder público em atualizar. Não alimenta automaticamente a partir dos processos administrativos da própria Prefeitura.

A distância entre o que existe e o que seria necessário não é tecnológica. É de prioridade.

Uma agenda municipal de eventos: quem ganharia?

O novo contrato como oportunidade

O processo de nova concessão do CentroSul abre uma janela específica para endereçar parte desse problema.

A Prefeitura já sinalizou a intenção de incluir no edital a contratação de auditoria independente e o compartilhamento periódico de informações sobre receitas, despesas, manutenção, obrigações contratuais e eventos.

Essa é uma medida necessária. E pode ser o ponto de partida para algo maior.

O novo contrato poderia estabelecer que dados básicos de agenda, público estimado e tipo de evento sejam repassados à Prefeitura em prazos que permitam uso real. Não como obrigação burocrática. Como contribuição ao sistema de inteligência econômica da cidade.

O CentroSul, por sua posição e escala, tem capacidade de alimentar uma base que beneficia o trade inteiro. Não apenas quem usa o espaço diretamente.

Mas isso exige que o contrato trate informação como ativo público. Não como detalhe operacional.

Inteligência como infraestrutura

O debate sobre o CentroSul tem sido lido, com razão, como uma urgência. A transição precisa ser protegida. A agenda futura precisa de solução imediata. O leilão precisa de credibilidade.

Mas existe uma camada mais profunda nessa discussão.

Uma cidade que depende de eventos para sustentar ocupação hoteleira ao longo do ano precisa enxergar sua própria agenda com clareza. Precisa saber o que está acontecendo, quando, onde e para qual perfil de público. Precisa ter essa visão com antecedência suficiente para que o mercado possa reagir.

Sem isso, cada hotel projeta no escuro. Cada fornecedor dimensiona no improviso. Cada organizador navega sem mapa.

O CentroSul é o caso mais urgente. Mas o problema é da cidade.

Não basta captar eventos. É preciso transformar eventos em inteligência.

Referências

  • CÂMARA MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS. Transcrição da reunião ampliada da Comissão de Turismo e Assuntos Internacionais sobre a situação do CentroSul. Requerimento nº 136/2026. Participações da vereadora Manu Vieira, do secretário Juliano Richter Pires, da secretária Katherine Schreiner e representantes do trade turístico. Florianópolis, abril de 2026.
  • ND MAIS. Ao levar o CentroSul para B3, Prefeitura de Florianópolis ligou um cronômetro implacável. Florianópolis, 10 jun. 2026.
  • ND MAIS. Prefeitura de Florianópolis avança com leilão da concessão do CentroSul. Florianópolis, 10 jun. 2026.
  • ND MAIS. Com impasse entre prefeitura e concessionária, agenda futura do CentroSul é mistério. Florianópolis, 25 abr. 2026.
  • ND MAIS. Impasse no CentroSul fez Florianópolis perder ‘sete ou oito’ grandes eventos nos próximos anos. Florianópolis, 17 abr. 2026.
  • ND MAIS. Prefeitura atrasa edital do CentroSul e já projeta contrato emergencial para 2027. Florianópolis, 23 abr. 2026.
  • NSC TOTAL. Prefeitura de Florianópolis fará licitação emergencial para o Centrosul, diz secretário. Florianópolis, 24 abr. 2026.
  • PREFEITURA MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS. Diário Oficial do Município. Publicações relacionadas à concessão, aditivos contratuais e contratação de apoio técnico para o processo de concessão do CentroSul. Florianópolis, 2026.
  • CENTROSUL. Informações institucionais sobre estrutura, localização e operação do Centro de Convenções de Florianópolis. Disponível em: site.centrosul.net. Florianópolis, 2026.
  • B3. Informações institucionais sobre leilões e estruturação de processos de concessão e parcerias públicas. São Paulo, 2026.